Artigo: Adoção e a necessidade do reconhecimento dos vínculos emocionais da criança

 Artigo: Adoção e a necessidade do reconhecimento dos vínculos emocionais da criança

Dia 25 de maio é celebrado o Dia Nacional da Adoção, que no Brasil sofreu profundas mudanças com a criação da Lei da Adoção, nº 12.010. Atualmente, muitas crianças e adolescentes estão à espera de uma saudável adoção, e do outro lado, enorme é a quantidade de pessoas que buscam adotar, mas por que tantas crianças são devolvidas?

Em alusão ao Dia Nacional da Adoção trago a reflexão: Tenho certeza que ao decidir adotar, a pessoa está praticando um ato de amor, porém, amor a quem? Já havia pensado nisso? É primordial, além de se ver a questão financeira, estrutural, de moradia, e outros, também se perceber em que posição emocional o adotante se coloca, como um sujeito que deseja “doar” ou “receber” amor? Está resposta faz toda a diferença.

Por que muitas pessoas, sem generalizar, optam por adotar para preencher um espaço vazio em suas vidas, sem verdadeiramente está seguro emocionalmente. Por exemplo, um casal que não pode ter filho ou que perdeu um filho, e deseja adotar para subrir essa lacuna, ou os casais que veem na criança a chance de “salvar” seus casamentos, ou aquele que não quer continuar sozinho na vida, etc.

Portanto, quando quem adota se vê na posição de receber amor, já inicia o processo de adoção em desequilibrio, cobrando um amor e comportamentos que o adotado não consegui suprir, além de estar em desacordo com o princípio basilar da adoção que é do melhor interesse da criança e não em satistazer os seus interesses pessoais exclusivamente.  

Um segundo ponto negativo é que as pessoas quando chegam nos abrigos acreditam que irão encontrar o “perfil ideal”, ou seja, crianças com poucos anos de vida, saudáveis, de pele clara e sem irmãos, o que só dificulta o processo, já que não se pode ver uma criança como um produto, pronta para se subrir todas a suas necessidades.

Desta forma, quando a criança não se encaixa no perfil ideal ou não preenche os espaços emocionais desejados pelo adotante, são devolvidas ainda  na fase de convivência, principalmente aqueles de adoção tardia. E na percepção de quem adota, todas as dificuldades de adaptação estão interligadas as interferências de aprendizados anteriores, ou seja, para eles o problema está no passado da criança ou adolescente.

 O primeiro passo, para desconstruir a cultura da busca peça adoção perfeita, é reconhecer que aquele menor já tem uma história de vida com vínculos biologicamante indissolúveis junto ao seu sistema de origem. E aqui não me refiro a manter contato físico com aqueles, nos moldes do Código Civil de 1916, mas sim, validar está existência na vida do menor. 

De acordo com os ensinamentos do filósofo e pai das constelações familiares, (método que facilita a compreensão dos movimentos dentro do campo familiar), Bert Hellinger, ao nascer herdamos não apenas um material genético, mas sim os comportamentos e as crenças do nosso sistema familiar. Assim, ao decidir adotar é importante que os interessados, acolham em seus corações o passado do menor, dando um bom lugar aos pais biológicos, não importa o que estes sejam ou tenham feito. Podendo inclusive dizer ao filho adotado: “Filho independente da sua origem, nós te amamos. Assim como somos gratos a sua família natural, porque ela nos deu você”. Esse movimento de inclusão, com certeza, vai gerar uma segurança emocional na criança ou adolescente.

Então, é preciso ter em mente que aquela criança ou adolescente jamais poderá suprir carências, perdas de filhos anteriores ou a impossibilidade de gerar um filho, pelo simples fato, de que ela é um ser humano único e que precisa ser acolhido com verdade.

Com isso, mais do que os efeitos legais adquiridos com a adoção, os menores precisam da comprensão de seus pais adotativos, para que juntos construam fortes laços de amor.

Por Ana Tarna Mendes – Advogada Familiar e Consteladora –

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